RIO - A integração física da América
do Sul, um dos objetivos mais importantes delineados durante a
reunião de cúpula sul-americana em Brasília,
na semana retrasada, não é um projeto novo. O assunto
já estava em pauta desde 1996, quando foi concluído
um estudo elaborado por Eliécer Batista da Silva, ex- chairman
da Companhia Vale do Rio Doce e ex-secretário de Assuntos
Estratégicos no governo de Fernando Collor. O trabalho,
que foi patrocinado por entidades como a Corporação
Andina de Fomento (CAF) e o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento
Sustentado, previa aportes de US$ 600 bilhões durante dez
anos.
Em entrevista ao Estado, Eliezer, hoje à frente de um
grupo de estudos estratégicos da Federação
das Indústria do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), falou
sobre o seu projeto e a retomada da idéia de integração
da América do Sul. "É preciso ter uma visão
sistêmica e holística do desenvolvimento. Olhar o
conjunto como um pássaro voando alto", afirma.
Potencial - Na origem do estudo de Eliezer esteve um pedido de
Fernando Henrique Cardoso, quando ainda era ministro da Fazenda
do governo Itamar Franco. Ele estava interessado no potencial
estratégico do "Merconorte", um acordo regional
entre o Brasil e os países andinos. A idéia era
a de se chegar, posteriomente, à união dos blocos
do Norte e do Sul do subcontinente, em um projeto de integração
da América do Sul semelhante ao que foi deslanchado na
cúpula sul-americana realizada em Brasília.
Mas o embrião do projeto de Eliezer sobre a integração
sul-americana, baseado na noção de "eixos de
desenvolvimento", é anterior ao pedido de Fernando
Henrique. O ex-secretário já trabalhava com a idéia
desde o governo Collor, no início dos anos 90. "O
Eliezer é um gênio porque consegue olhar, ao mesmo
tempo, as dimensões macro e micro", diz José
Guilherme Almeida dos Reis, secretário de Planejamento
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), que está envolvido na parte brasileira do projeto
de integração.
Eliezer cita alguns exemplos de eixos de integração
sul-americana que já foram, em alguma medida, implementados:
o gasoduto Brasil-Bolívia, a ligação rodoviária
e energética entre a Amazônia brasileira e a Venezuela,
a integração dos sistemas de energia elétrica
do Brasil e da Argentina e os avanços feitos na navegação
fluvial.
Entre as lacunas na integração continental, ele
destaca a ferrovia Assunção-Foz do Iguaçu-Cascavel,
que integraria a economia paraguaia à brasileira, e a ligação
fluvial e rodoviária entre a região Norte do Brasil
e o Peru. Este eixo depende da construção de rodovias
entre Sarameriza e o centro industrial e minerador Bayóvar,
ambos no Peru, e entre o Acre e Sarameriza.
O Avança Brasil, plano de investimento em infra-estrutura
do governo Fernando Henrique Cardoso, a ser financiado principalmente
com capitalprivado, adotou o conceito de "eixo de desenvolvimento",
que já estava no estudo de Eliezer. O Avança Brasil,
porém, abordou de forma mais tímida a idéia
de integrar os diferentes países sul-americanos. No início
deste ano, quando o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
celebrou seus 40 anos, Fernando Henrique instigou a instituição
a articular um projeto de integração sul-americana,
retomando a idéia cultivada durante o seu mandato como
ministro da Fazenda. Na recente cúpula sul-americana em
Brasília, o projeto foi deslanchado oficialmente.
Os eixos de desenvolvimento nada mais são do que canais
geográficos por onde passam, de preferência simultaneamente,
empreendimentos de infra-estruturanas áreas de logística
(transporte e armazenagem), energia e telecomunicações.
Em torno dos eixos, como explica Eliezer, se formam cinturões
de adensamento econômico - isto é, eles atraem empresas
que se aproveitam das facilidades de infra-estrutura oferecidas.
Um exemplo típico é o programa de construção
de usinas termelétricas em torno do gasoduto Brasil-Bolívia.
A oferta de eletricidade potencialmente barata - se estas regiões
não subsidiassem fontes distantes de geração
– na área de influência do gasoduto poderia
provocar o tipo de adensamento previsto por Eliezer, com a atração
de empresas interessadas na redução do custo de
produção.
Investimentos - O desenvolvimento econômico, quando ocorre,
irradia os investimentos antes concentrados em torno de pólos
urbanos altamente congestionados. E a escolha geográfica
dos agentes econômicos deixa de ser um processo aleatório,
passando a seguir uma orientação estratégica
que busca maximizar as economias e ganhos potenciais de cada localização,
em termos de energia, logística e telecomunicações.
A motivação da teoria dos eixos é bem simples:
"Tudo fica mais barato quando se faz ao mesmo tempo".
Eliezer observa que um dos componentes mais caros em projetos
naquelas três áreas de infraestrutura é o
custo de desapropriação.
Uma vez estabelecida a chamada "faixa de segurança"
de um projeto, o eixo por onde se pretende passar uma ferrovia,
rodovia ou linha de transmissão, a abordagem mais econômica
é concentrar no local o máximo de investimentos
em infra-estrutura.
De acordo com Eliezer, um exemplo bem concreto são os
cabos de fibra ótica, área chave do avanço
atual das telecomunicações. A instalação
dos cabos pode aproveitar, de diferentes formas, os eixos abertos
em função de investimentos em transporte e em energia.
As fibras óticas podem ser instaladas nas mesmas infra-estruturas
de ferrovias, gasodutos, metrôs, rodovias, túneis
e linhas de transmissões elétricas.
A coordenação central do projeto de integração
sul-americana foi delegada pelo BID ao Instituto para a Integração
da América Latina e do Caribe (Intal), com sede em Buenos
Aires. No Brasil, o Ministério do Planejamento e o BNDES
estão envolvidos. A CAF também está no projeto
e, segundo o secretário do BNDES, é o único
participante que já tem pronto o projeto de integração
(no caso, referente ao noroeste da América do Sul, englobando
o Brasil e os países andinos). A razão para isto
é que a CAF começou a trabalhar no assunto há
bastante tempo, com base no estudo de Eliezer, concluído
em 1996.