Caracas, 24 de Outubro de 2002
Banco de fomento transforma-se em um "think tank" regional.
A Corporación Andina de Fomento (CAF) pretende ser muito
mais do que um banco de desenvolvimento dos seus países-membros
- Peru, Venezuela, Colômbia, Equador e Bolívia -
que não conseguem o mesmo sucesso que a instituição
nos mercados financeiros internacionais. A CAF tem uma classificação
de risco semelhante a do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) e vem sendo considerada uma "jóia escondida"
na região.
O economista Horst Grebe, diretor da Fundación Prisma,
da Bolívia, assessor da CAF e ex-ministro do Trabalho e
de Minas e Energia, diz que a instituição "está
fazendo o que as outras abdicaram de fazer".
No encerramento de um seminário para editores de economia
ibero-americanos, na noite de terça-feira, Grebe informou
que a CAF está organizando uma agenda latino-americana
como a que existia nos anos 50 e 60. Nessa época, a elaboração
ficava por conta da Comissão Econômica para a América
Latina e o Caribe (Cepal), que pregava a substituição
de importações e marcou época como escola
de pensamento econômico. "A América Latina está
órfã de idéias. Tem que construir a sua própria
agenda" até para não ser sufocada pela agenda
imposta pelos EUA, destacou.
O caminho para ser uma espécie de Cepal do século
21 vem sendo construído gradualmente. Com a certeza de
que o debate deve cada vez mais enfocar as relações
entre a economia e a política, em uma região que
"perde perfil no mundo" e cuja crise "tem características
de depressão", ao mesmo tempo em que as perspectivas
para os próximos anos "são alarmantes",
na visão de Grebe, a CAF está promovendo vários
tipos de debates.
Um deles está acontecendo entre ex-presidentes da região.
O primeiro foi em Cartagena das Índias (Colômbia),
que reuniu Gonzálo Sánchez de Lozada (Bolívia),
Ernesto Samper (Colômbia), Carlos Lemos Simmons (Colômbia),
Eduardo Frei Ruiz-Tagle (Chile), Rodrigo Borja (Equador), Carlos
Roberto Reina (Honduras), Miguel de la Madri (México),
Ernesto Pérez (Panamá), Leonel Fernández
(República Dominicana), Julio María Sanguinetti
(Uruguai) e Rafael Caldera (Venezuela).
Do encontro saiu o livro "Globalização: rumo
a uma agenda para a América Latina", de abril deste
ano. A segunda conferência de ex-presidentes foi em Santiago
do Chile. E a terceira será no México, em abril
de 2003, com a participação do presidente Fernando
Henrique Cardoso.
O economista da Universidade de Columbia (EUA), Jeffrey Sachs,
propôs que a CAF realize também uma cúpula
econômica para discutir questões latino-americanas.
A instituição vai aceitar a proposta , principalmente
para debater como sair da depressão e construir um futuro
compartilhado entre os países, afirma Grebe.
"Estamos nos convertendo em um "think tank" da
região. Há um intenso trabalho de pensamento na
CAF", observa José Luis Ramírez, diretor de
comunicações corporativas da entidade, que em agosto
do ano passado publicou o que considera um de seus principais
trabalhos: o livro Visões para um futuro sustentável.
Além da reunião de ex-presidentes, a CAF promove
seminários para editores de economia "já está
em sua terceira edição" e pretende seguir com
o tema sobre a responsabilidade do sistema de comunicações
na América Latina. A instituição vem tendo
uma participação maior com a Iniciativa para a Integração
da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), que financia
eixos de integração, como a saída do Brasil
para o Oceano Pacífico.
Desenvolvimento Sustentável
Mas é no desenvolvimento sustentável que a CAF
está pondo a maior parte de suas fichas. "Não
há políticas de sustentabilidade como na CAF",
diz Grebe.
A Corporación Andina tem uma diretoria de desenvolvimento
sustentável que cuida dos programas de biodiversidade (Bio-CAF),
de Carbono (PLAC, energias alternativas), da prevenção
de desastres naturais (Pré-Andino) e do desenvolvimento
humano sustentável. A CAF fez um acordo com o VROM, o Ministério
de Meio Ambiente, Habitação e Planejamento dos Países
Baixos. O PLAC facilita a venda de toneladas de CO2 em um período
de tempo acertado com o ministério holandês.
A CAF tem cinco sócios, onze acionistas (Argentina, Brasil,
Chile, Costa Rica, Espanha, México, Jamaica, Paraguai,
Uruguai e Trinidad-Tobago) e opera com 22 bancos privados da região.